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Por tras das árvores o azul do céu.2.jpg

sem título da série Por trás das árvores, o azul do céu. Tinta nanquim e papel washi, sobre papel. 2022. 25,5 x 25,5 cm 

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sem título da série Por trás das árvores, o azul do céu. Tinta nanquim e papel washi, sobre papel. 2022. 25,5 x 25,5 cm 

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sem título da série Por trás das árvores, o azul do céu. Tinta nanquim e papel washi, sobre papel. 2022. 25,5 x 25,5 cm 

“O Homem é também o lugar do desconhecimento – desse desconhecimento que expõe sempre o seu pensamento a ser ultrapassado pelo seu ser próprio e que lhe permite ao mesmo tempo vir a si a partir do que lhe escapa”1

 

Há quase quatrocentos anos um humano sistematizou a cisão entre matéria e espírito ou entre corpo e mente. Nessa ordenação, Descartes cindiu a coisa expansiva, os corpos (res extensa) e a coisa pensante (res cogitans). Essa divisão tornou o pensamento, através de dispositivos como a ciência, uma condição vital do existir ocidental (cogito, ergo sum). Mas foi outra cisão que se tornou matriz e chave de compreensão para o mundo em que vivemos: a divisão entre pessoas e coisas, que ocorre no distante período greco-romano. Este espaço dicotômico se tornou a visão de mundo hegemônica. Os avanços da sociedade moderna e contemporânea, para o bem ou para o mal, nos levaram, no momento presente, a questionar essa relação estabelecida como única saída possível para diminuir os impactos destruidores deste modo de vida. Sob pena de perdermos não só nosso modelo, mas também a própria vida que dá sentido a ele. . . .

 

A arte é algo que pode nos fazer pensar. Ela é uma linguagem que busca o questionamento, mais do que a narração; que nos  re–apresenta algo, mais do que representa aquilo que já conhecemos, o que estabelecido está. As séries de trabalhos, mais uma instalação e um site-specific, de Corina Ishikura nesta exposição seguem esta linha do questionamento; penso que isto se faz utilizando da típica relação dicotômica, no caso o binômio natureza–cultura, mas ao invés da separação ela se vale da união ou junção de coisas, segundo o senso comum, diferentes. Ela age levando em conta que aquilo que nos rodeia, incluindo nós mesmos, encontram-se nesta situação intermediária: são naturais e culturais ao mesmo tempo2. O site-specific localizado na entrada da exposição está justamente nesse “entre”; a tela metálica que assume formas orgânicas é cultural ou natural? o galho de árvore é natural, mas a condição em que ele se encontra só é possível de um ponto de vista cultural; dito de outra forma, qual o grau de “natureza” que há, por exemplo, em arbustos ou quase árvores que nascem e se desenvolvem em viadutos ou construções abandonadas? Ou como dois materiais diferentes formam um corpo híbrido, um corpo-objeto, que se expande e nos remete a um corpo-paisagem? ( . . .)

Marcelo Salles

NOTAS:

1. Foucault, Michel – As Palavras e as Coisas - Edições 70, pg. 425

2. Descola, Philippe – Outras naturezas, outras culturas - Editora 34. Pg.8

3. Buck-Morss, Susan – Benjamin e a obra de arte: técnica, imagem, percepção – Contraponto Editora. Ver páginas 182 e 183 (Bétulas podadas de Vincent Van Gogh e ilustração de células do córtex cerebral pelo anatomista Vladimir Betz)

4. Esposito, Roberto – As pessoas e as coisas - Rafael Copetti Editor

 

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